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Texto para as 3 individuais simultâneas, na Oficina Cultural Oswald de Andrade (13/11/2014 _ 07/02/2015)

Por Marco Buti

 

habitar a paisagem ( lugares em mim)  cleiri cardoso

outras naturezas, outras miragens  flora assumpção

paisagens gráficas  elaine arruda

 

Multiplicação e Miopia 2

O geógrafo Denis Cosgrove propôs abordar a paisagem com os mesmos instrumentos críticos usados para a literatura e a arte. As três artistas reunidas nesta exposição têm a paisagem como referência, se não exclusiva, predominante. Mas não poderiam adotar a mesma posição do pesquisador: elas se manifestam através de imagens, linguagem que demanda meios materiais e técnicos, o fazer artístico, em suma. Impossibilidade de controle e consequente imprevisibilidade: estas características fundamentais da paisagem parecem ter se incorporado em boa parte das operações mobilizadas para concretizar os trabalhos aqui apresentados.

Uma História da Arte voltada quase exclusivamente para os resultados de pintura, escultura e suas expansões contemporâneas, obras únicas ou tratadas como únicas, destinadas a espaços fixos, pouco ajuda a compreender a imagem como processo, resultado provisório de procedimentos nem sempre exclusivamente artísticos. Tampouco a noção pueril do fazer do artista como habilidade. O campo da multiplicação sempre se apoiou numa organização mais industrial, onde as técnicas devem funcionar, de maneira controlável. No entanto, as mesmas técnicas podem se tornar pouco previsíveis, em função de solicitações poéticas alheias ao uso padronizado. O que aqui encontramos nos bastidores das imagens são   pensamentos em busca do meio e processo exatos, dentre os disponíveis e possíveis. Aquele que, espera-se, condensará a maior carga poética. A imagem, mesmo abstrata, só pode ser resultado de operações concretas.

Esta questão tem sido descurada, na paisagem de uma arte contemporânea cada vez mais controlada, previsível e discursiva. Não se nota quando a peça apresentada, de acabamento impecável, é o único resultado aceito pelo artista após múltiplas tentativas frustradas, que talvez não poderá ser repetido. Como podem coexistir contemporaneamente meios digitais usados de forma pouco profissional, uma indústria em extinção como os estaleiros de Belém, mas com equipamentos adaptáveis para a impressão de estampas de grande formato, e a corrosão de matrizes pela água do mar. A exigência de usar precisamente a fotogravura, técnica aperfeiçoada no séc. XIX, e raramente praticada em nossos dias, para a realização final de imagens de fenômenos naturais compiladas na internetou fotografadas frente aos fatos.

Cosgrove aponta a presença da história na paisagem. Na paisagem como forma de arte, grande parte dos significados está no confronto entre as ações humanas e os ciclos naturais. No meio artístico brasileiro, o envolvimento com todos os aspectos da realização artística, e não apenas com a concepção, provém de necessidades econômicas, sociais, geopolíticas, técnicas, que se impõem à imposição abstrata das ideias fora de lugar.

Sem contar, é claro, a simples alegria do trabalho.

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Texto sobre a exposição de conclusão de mestrado “habitar a paisagem” na Galeria Gravura Brasileira (set/out 2014)

Por Claudio Mubarac

 

Sempre que penso sobre o problema da natureza dos discursos e quando estou diante de trabalhos visuais tão bons quanto esses, me pergunto sobre elas, mais que respostas, o que tenho são novas indagações.

Aqui, nos trabalhos de Cleiri Cardoso, as figuram se conjugam entre o desenho, a fotografia e a gravura,na reprodução como cerne do fenômeno revivido das paisagens, das passagens do tempo. Aqui não há a ausência do tempo pregnante diante de certa máquina contemporânea. A vivência do tempo, mais da temporalidade, não existe somente como experiência interna, mas se concretiza também em vocação de partilha. A ideia de paisagem materna de Evandro Carlos Jardim nos vem de imediato: aquela que se constrói quando o de fora nos habita, no mesmo instante em que o interno se espraia em nossa vista.

Vejo aqui a gravura servindo aos propósitos de um encontro feliz entre uma artista e um material, com seus códigos de tradução já tão sistematizados e, por isso mesmo, abertos de modo generoso a novas interpretações e usos.

Como cravar nos veios das tábuas, nas ranhuras dos metais, a névoa uterina? Como revelar as figuras, no tingimento de suas superfícies, em espaços tão densamente habitados?

Mas, no fim das contas, mesmo com um grande número de janelas abertas nessa casa povoada, pode-se observar que a bruma que percorre essas imagens não é artesanal ou que, nesse caso, a artesania é um modo elevado de produção poética. E, mais ainda, se constitui numa visão peculiar e bastante poderosa da sobrevivência de um fazer e da articulação de figuras do mundo, por uma artista que mostra por seu trabalho que fazer é pensar.

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